quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A vocação universal à santidade

O amável São João Paulo II, quando em sua viagem a Croácia em 2003 disse:"Sois chamados à santidade em todas as fases da vossa vida:  na primavera da juventude, no pleno verão da idade madura e, depois, também no outono e no inverno da velhice e, enfim, na hora da morte e mesmo para além da morte, na derradeira purificação predisposta pelo Amor misericordioso de Deus".

Na audiência geral do dia 19 de novembro de 2014, o Papa Francisco explicou que todo o batizado pode ser santo:

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
Um grande dom do Concílio Vaticano II foi ter recuperado uma visão de Igreja fundada na comunhão e ter voltado a entender também o princípio da autoridade e da hierarquia em tal perspectiva. Isto ajudou-nos a compreender melhor que, enquanto batizados, todos os cristãos têm igual dignidade diante do Senhor e são irmanados pela mesma vocação, que é a santidade (cf. Const.Lumen gentium, 39-42). Agora, interroguemo-nos: em que consiste esta vocação universal a sermos santos? E como a podemos realizar?
Antes de tudo, devemos ter bem presente que a santidade não é algo que nos propomos sozinhos, que nós obtemos com as nossas qualidades e capacidades. A santidade é um dom, é a dádiva que o Senhor Jesus nos oferece, quando nos toma consigo e nos reveste de Si mesmo, tornando-nos como Ele é. Na Carta aos Efésios, o apóstolo Paulo afirma que «Cristo amou a Igreja e se entregou por ela para a santificar» (Ef 5, 25-26). Eis que, verdadeiramente, a santidade é o rosto mais bonito da Igreja, o aspecto mais belo: é redescobrir-se em comunhão com Deus, na plenitude da sua vida e do seu amor. Então, compreende-se que a santidade não é uma prerrogativa só de alguns: é um dom oferecido a todos, sem excluir ninguém, e por isso constitui o cunho distintivo de cada cristão.
Tudo isto nos leva a compreender que, para ser santo, não é preciso ser bispo, sacerdote ou religioso: não, todos somos chamados a ser santos! Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade só está reservada àqueles que têm a possibilidade de se desapegar dos afazeres normais, para se dedicar exclusivamente à oração. Mas não é assim! Alguns pensam que a santidade é fechar os olhos e fazer cara de santinho! Não, a santidade não é isto! A santidade é algo maior, mais profundo, que Deus nos dá. Aliás, somos chamados a tornar-nos santos precisamente vivendo com amor e oferecendo o testemunho cristão nas ocupações diárias. E cada qual nas condições e situação de vida em que se encontra. Mas tu és consagrado, consagrada? Sê santo vivendo com alegria a tua entrega e o teu ministério. És casado? Sê santo amando e cuidando do teu marido, da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És batizado solteiro? Sê santo cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho e oferecendo o teu tempo ao serviço dos irmãos. «Mas padre, trabalho numa fábrica; trabalho como contabilista, sempre com os números, ali não se pode ser santo...». «Sim, pode! Podes ser santo lá onde trabalhas. É Deus quem te concede a graça de ser santo, comunicando-se a ti!». Sempre, em cada lugar, é possível ser santo, abrir-se a esta graça que age dentro de nós e nos leva à santidade. És pai, avô? Sê santo, ensinando com paixão aos filhos ou aos netos a conhecer e a seguir Jesus. E é necessária tanta paciência para isto, para ser um bom pai, um bom avô, uma boa mãe, uma boa avó; é necessária tanta paciência, e é nesta paciência que chega a santidade: exercendo a paciência! És catequista, educador, voluntário? Sê santo tornando-te sinal visível do amor de Deus e da sua presença ao nosso lado. Eis: cada condição de vida leva à santidade, sempre! Em casa, na rua, no trabalho, na igreja, naquele momento e na tua condição de vida foi aberto o caminho rumo à santidade. Não desanimeis de percorrer esta senda. É precisamente Deus quem nos dá a graça. O Senhor só pede isto: que permaneçamos em comunhão com Ele e ao serviço dos irmãos.
Nesta altura, cada um de nós pode fazer um breve exame de consciência, podemos fazê-lo agora, e cada qual responda dentro de si mesmo, em silêncio: como respondemos até agora ao apelo do Senhor à santidade? Desejo ser um pouco melhor, mais cristão, mais cristã? Este é o caminho da santidade. Quando o Senhor nos convida a ser santos, não nos chama para algo pesado, triste... Ao contrário! É o convite a compartilhar a sua alegria, a viver e a oferecer com júbilo cada momento da nossa vida, levando-o a tornar-se ao mesmo tempo um dom de amor pelas pessoas que estão ao nosso lado. Se entendermos isto, tudo mudará, adquirindo um significado novo, bonito, um significado a começar pelas pequenas coisas de cada dia. Um exemplo. Uma senhora vai ao mercado para fazer as compras, encontra uma vizinha, começam a falar e então chegam as bisbilhotices, e a senhora diz: «Não, não falarei mal de ninguém!». Este é um passo rumo à santidade, ajuda-nos a ser santos! Depois, em casa, o filho pede para te falar das suas fantasias: «Oh, estou muito cansado, hoje trabalhei tanto...». «Mas acomoda-te e ouve o teu filho que precisa disto!». Acomoda-te e ouve-o com paciência: é um passo rumo à santidade. Depois, acaba o dia, todos estamos cansados, mas há a oração. Recitemos uma prece: também este é um passo para a santidade. Então, chega o domingo e vamos à Missa, recebamos a Comunhão, às vezes precedida por uma boa confissão, que nos purifica um pouco! Este é outro passo rumo à santidade. Depois, pensemos em Nossa Senhora, tão boa e bela, e recitemos o Rosário. Também este é um passo para a santidade. Então, vou pelo caminho, vejo um pobre, um necessitado, paro, faço-lhe uma pergunta, dou-lhe algo: é um passo rumo à santidade! São pequenas coisas, mas muitos pequenos passos para a santidade. Cada passo rumo à santidade fará de nós pessoas melhores, livres do egoísmo e do fechamento em nós mesmos, abertos aos irmãos e às suas necessidades.
Caros amigos, a primeira Carta de são Pedro dirige-nos esta exortação: «Como bons dispensadores das diversas graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu: a palavra, para anunciar as mensagens de Deus; um ministério, para o exercer com uma força divina, a fim de que em todas as coisas Deus seja glorificado por Jesus Cristo» (4, 10-11). Eis o convite à santidade! Aceitemo-lo com alegria e sustentemo-nos uns aos outros porque o caminho para a santidade não o percorremos sozinhos, cada qual por sua conta, mas juntos, no único corpo que é a Igreja, amada e santificada pelo Senhor Jesus Cristo. Vamos em frente com ânimo, neste caminho da santidade.
Texto retirado de: Audiência Geral do Papa Francisco em 19/11/2014.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

1° de Agosto: Santo Afonso Maria de Ligório

Nasceu em Nápoles em 1696; obteve o doutorado em Direito civil e eclesiástico, recebeu a ordenação sacerdotal e fundou a Congregação do Santíssimo Redentor. Com a finalidade de incrementar a vida cristã entre o povo, dedicou-se à pregação e escreveu vários livros, sobretudo de teologia moral, matéria na qual é considerado insigne mestre. Foi eleito bispo de Sant’Agata dei Goti, mas renunciou ao cargo pouco depois e morreu junto dos seus,em Nocera dei Pagani, na Campânia em 1787.
























Das Obras de Santo Afonso Maria de Ligório, bispo
(Tract. De praxi amandi Iesum Christum, edit. latina, Romae 1909, pp.9-14)
(Séc.XVII)

Sobre o amor a Jesus Cristo
    Toda santidade e perfeição consiste no amor a Jesus Cristo, nosso Deus, nosso sumo bem e nosso redentor. É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito...

domingo, 12 de junho de 2016

12 - O Deus escondido, o soberano sacerdote


 

20 Et erat quidam mendicus nomine Lazarus qui iacebat ad ianuam eius ulceribus plenus 21 cupiens saturari de micis quae cadebant de mensa divitis sed et canes veniebant et lingebant ulcera eius 22 factum est autem ut moreretur mendicus et portaretur ab angelis in sinum Abrahae (Lc 16, 20-22).


20 Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; 21 e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. 22 Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão (Lc 16, 20-22).







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terça-feira, 7 de junho de 2016

7 - Visitas Eucarísticas: a fonte da vida, a árvore da vida



Vere languores nostros ipse tulit et dolores nostros ipse portavit et nos putavimus eum quasi leprosum et percussum a Deo et humiliatum ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras adtritus est propter scelera nostra disciplina pacis nostrae super eum et livore eius sanati sumus (Is 53, 4-5). 
 

Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas chagas fomos sarados (Is 53, 4-5).
 

Primeiro Prelúdio. Foi o celeste médico quem tomou sobre si as nossas enfermidades, é o caçador de almas, é o capitão que quer conduzir-nos ao combate.
Segundo Prelúdio. Senhor, curai-me, ganhai a minha vontade, guiai-me.

I - Quem vem? É o celeste médico que tomou sobre si as nossas enfermidades, para nos curar. – O profeta Isaías descreve longamente esta substituição (c. 53). Nós é que estamos moralmente doentes. Afastámo-nos como ovelhas errantes, desviámo-nos da via do Senhor. Éramos como leprosos pelos nossos pecados, merecíamos ser abandonados ao sofrimento e à morte; mas o celeste médico tomou tudo sobre si. Ergue-se diante do Senhor como um arbusto ressequido, está coberto de chagas e cheio de desprezos. Já não tem beleza. Vai para a morte como um cordeiro que se deixa levar. É que ele tomou sobre si todas as nossas responsabilidades e todos os nossos sofrimentos redentores que nós mesmos deveríamos ter sofrido.
Fez mais do que o bom samaritano, não apenas pensou as nossas feridas, tomou-as sobre si.
Nada se aproxima desta generosidade. O Coração do celeste médico ultrapassa todos os corações pela sua bondade, pelo seu desinteresse.

II - Quem vem? É o caçador de almas. – Sim, o Salvador que parece lá inactivo no tabernáculo é um caçador ardente. Tem para ganhar as nossas almas toda a paixão que têm os caçadores para pegarem na caça, Jeremias (16, 16) apresenta-nos Deus que envia grupos de pescadores e de caçadores contra o seu povo. S. Jerónimo interpreta isto como reportando-se aos nossos tempos de graça. O Salvador fez ele mesmo a caça das almas percorrendo a Galileia e a Judeia. Depois, organizou /628 esta caça e esta pesca com os apóstolos e com os homens apostólicos; mas permanece ele mesmo o chefe desta caça nos tabernáculos. Inspira os homens apostólicos. Derrama nos seus corações o ardor e o zelo pela salvação das almas. Depois lança ele mesmo as suas flechas de amor nos corações dos fiéis que o recebem ou que o visitam. O Coração do bom Mestre é o coração de um caçador ardente e apaixonado que quer a todo o custo tornar-se o senhor dos nossos corações.
As suas flechas são a sua beleza e a sua bondade que tocam os nossos corações e os ferem de amor. David, no salmo 44, descreveu bem esta caça das almas: «Ó rei, diz, vós ultrapassais em graça e em beleza os filhos dos homens. Isto vos torna todo-poderoso sobre os corações. Servi-vos dos vossos atractivos como de flechas para submeter os corações ao vosso império, pela potência da verdade, da doçura e da justiça. As vossas flechas são agudas, elas ferirão no coração aqueles que quereis atingir».
Ó divino caçador, lançai ao meu coração uma destas flechas vitoriosas. Feri-o pelo vosso amor e ganhai-o para sempre.

III - Quem vem? É o celeste capitão, para me armar com a fé, com a justiça e com o amor. – Vou fazer aliança convosco, diz o Senhor em Isaías (55, 3); vou realizar a promessa que fiz a David, dar-vos-ei o Salvador prometido; será o testemunho da verdade, mas será também um chefe, um capitão e um preceptor: ducem ac praeceptorem… Saireis com alegria da escravatura em que estáveis reduzidos e sereis conduzidos na paz.
A quem vem o celeste capitão? A um soldado sem coragem, a um desertor, porque não passo disto. Não desertei já, por diversas vezes, do serviço do divino Rei? Não escapei ao meu capitão? E, no entanto, ele vem sem cólera. Ele quer dar-me o meu lugar e voltar a fazer-me cavaleiro do Rei dos reis.
S. Paulo descreve aos Efésios (c. 6) esta armadura espiritual que devemos revestir. «Revesti-vos, diz, com todas as armas de Deus, porque tendes de combater contra as potências infernais. Que a verdade seja a cintura dos vossos rins e a justiça a vossa couraça. Tende o calçado firme que simboliza o apostolado; levai o escudo da fé e o capacete dos pensamentos celestes. E como almas amantes, vivei na união com Nosso Senhor, no recolhimento, na oração habitual».
É este laço de amor que será a vossa melhor arma.

Resoluções. – A união ao Coração de Jesus será a minha salvação e a minha força. Feri o meu coração com as vossas flechas, ó divino caçador; curai este pobre /630 coração doente, ó celeste médico; armai-me com fé e amor, ó Rei do céu e fazei de mim o cavaleiro fiel, assíduo e dedicado do vosso Coração

domingo, 5 de junho de 2016

5 - Visitas Eucarísticas: o Bom Pastor

Carissimi diligamus invicem quoniam caritas ex Deo est et omnis qui diligit ex Deo natus est et cognoscit Deum qui non diligit non novit Deum quoniam Deus caritas est in hoc apparuit caritas Dei in nobis quoniam Filium suum unigenitum misit Deus in mundum ut vivamus per eum (1Jo 4, 7-9).

Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.  Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele (1Jo 4, 7-9).


Primeiro Prelúdio. Deus manifestou-nos o seu amor enviando-nos o seu Filho que deu a sua vida por nós.
Segundo Prelúdio. O amor chama o amor; o amor menosprezado chama o amor reparador.

I - A manifestação do Sagrado Coração a Margarida Maria é a manifestação do amor. – Quando Jesus mostrava a Margarida Maria o seu Coração apaixonado de amor pelos homens, e incapaz de conter mais longamente as chamas que o devoravam, que queria ele senão atrair a atenção sobre este amor, levar-nos a prestar-lhe homenagem, convidar-nos e irmo-nos alimentar neste Coração infinitamente rico? (Bainvel).
Ao dizer-nos que encontra um singular prazer em ser honrado sob a figura de um coração de carne, que objectivo tem? Que é que nos pede senão honrarmos o seu amor e responder-lhe dando-lhe amor por amor? A manifestação do Sagrado Coração a Margarida Maria é a manifestação do amor.
A devoção ao Sagrado Coração reconduz-se, portanto, segundo a palavra de Pio V, a venerar a imensa caridade e o amor pródigo (effusum) de Nosso Senhor, acendendo o nosso amor neste fogo de amor.
Margarida Maria, resumindo as suas visões, escrevia ao P. Croiset: «Era-me mostrado um Coração sempre presente, lançando chamas de toda a parte, com estas palavras: Se soubesses como estou sedento de me fazer amar pelos homens, não descuidarias nada por isto… Tenho sede, ardo por ser amado».

II - O amor apela ao amor. – O fim da nova devoção, dizia o postulador de 1697, é pagar um tributo de amor à fonte mesma do amor. – O primeiro fim que temos em vista, dizia o postulador de 1727, o P. de Gallifet, é responder ao amor de Cristo. – E o P. Croiset: Isto aqui não é senão um exercício de amor; o amor é o seu objecto, o amor é o seu motivo principal, e é o amor que deve ser também o seu fim.
É assim de facto que o entende a Igreja. Ela diz na secreta da missa Egredimini: «Nós vos suplicamos, Senhor, que o Espírito Santo nos inflame do amor que Nosso Senhor Jesus Cristo fez jorrar do seu Coração sobre a terra, e do qual quer que ela se abrase». Quando Pio IX, em 1856, estendia a festa do Sagrado Coração à Igreja inteira, era para «fornecer aos fiéis estímulos para amar e pagar com amor o Coração daquele que nos amou e lavou os nossos pecados no seu sangue».
Quando eleva a festa a um rito superior, é para que «a devoção de amor ao Coração do nosso Redentor se propague sempre mais, e desça mais adiante no coração dos fiéis, e que assim a caridade, que em muitos arrefeceu, se reanime nos fogos do divino amor».
Leão XIII repetiu os mesmos ensinamentos. Na sua Encíclica de 28 de Junho de 1889, escreve: «Jesus não tem desejo mais ardente que o de ver acender-se nas almas o amor do qual o seu próprio Coração é devorado. Vamos, portanto, àquele que não nos pede como preço da sua caridade senão a reciprocidade do amor».
Nada de mais claro; o acto próprio da devoção ao Sagrado Coração é o amor.

III - O amor menosprezado chama o amor reparador. – A devoção ao Sagrado Coração sendo uma resposta de amor ao amor menosprezado e ultrajado, apresenta-se naturalmente como um amor de reparação. Assim todos os documentos autorizados falam-nos da reparação ao mesmo tempo que do amor.
O amor de Jesus, tal como se mostrou a Margarida Maria, é especialmente o amor menosprezado e ultrajado, e é isso que dá a sua importância ao acto de reparação no culto do Sagrado Coração.
O P. Eudes não esqueceu a reparação, mas deixa-a em segundo plano, ele está totalmente absorvido pelo amor, canta o amor.
Margarida Maria, a pedido de Nosso Senhor, coloca no mesmo plano o amor e a reparação. Mas é uma reparação de amor sobretudo que ela pede, antes que uma reparação de justiça ou de expiação.
Esta reparação de amor traduz-se na pública retratação, que se dirige precisamente ao amor menosprezado e ultrajado.
O amor, a consagração ou dom amoroso de si ao Sagrado Coração, a vida toda para ele e dele, mantêm o primeiro lugar nos escritos de Margarida Maria. A reparação e a pública retratação vêm depois, como um testemunho especial de amor para com o amor menosprezado e ultrajado do Salvador.

Resoluções. – Amor e reparação, consagração assídua de mim mesmo, eis o que o Sagrado Coração espera de mim. Mas esta consagração deve abraçar todos os meus actos. Devo renová-la no começo de cada uma das minhas acções, e é preciso para isso viver num piedoso e constante recolhimento, sob o olhar de Nosso Senhor no espírito de amor e de reparação.

sábado, 4 de junho de 2016

4 - O Amor de Nosso Senhor

Implete gaudium meum ut idem sapiatis eandem caritatem habentes unanimes id ipsum sentientes nihil per contentionem neque per inanem gloriam sed in humilitate superiores sibi invicem arbitrantes non quae sua sunt singuli considerantes sed et ea quae aliorum hoc enim sentite in vobis quod et in Christo Iesu (Fil 2, 2-5).


Completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento. Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus (Fil 2, 2-5).



Primeiro Prelúdio. S. Paulo dá-nos como modelo o interior de Jesus, a sua humildade, a sua caridade; na realidade, é o seu Sagrado Coração.

Segundo Prelúdio. Senhor, dai-me a graça de compreender bem o vosso interior, isto é, o vosso Coração sagrado.



I - Na linguagem piedosa, o Sagrado Coração entende-se de todo o interior de Jesus. – Nosso Senhor mesmo no-lo autorizou. Não disse ele: «Aprendei de mim que sou doce e humilde de coração?». Não se trata aqui do seu coração propriamente dito, mas da sua alma, do seu interior, das suas virtudes.
É a linguagem de Margarida Maria e dos seus intérpretes, os Padres de la Colombière e de Gallifet. Sob o nome do Sagrado Coração, Margarida Maria apresenta-nos todas as virtudes de Nosso Senhor, todos os actos da sua vida interior.
«Muitos enganam-se, diz o P. de Gallifet (Liv. 1, c.4). Ao escutarem este nome sagrado, o Coração de Jesus, limitam o seu pensamento ao coração material de Jesus Cristo. Mas como há-de ser diferente e magnífica a ideia que dele devemos ter! É preciso que o consideremos intimamente unido à alma e à pessoa de Jesus Cristo, cheio de vida, de sentimento e de inteligência; como o mais nobre e principal órgão dos afectos sensíveis de Jesus Cristo, do seu amor, do seu zelo, da sua obediência, dos seus desejos, das suas dores, das suas alegrias, das suas tristezas; como o princípio e a sede destes mesmos afectos e de todas as virtudes do Homem-Deus…». - «A oferta do Sagrado Coração, diz o P. de la Colombière, faz-se para honrar o seu divino Coração, a sede de todas as virtudes, a fonte de todas as bênçãos e o retiro de todas as almas santas…».
As ladainhas do Sagrado Coração enumeram também todas as riquezas escondidas /617 na humanidade santa de Nosso Senhor, na sua vida terrestre, na sua Paixão, na Eucaristia e mesmo no céu .

II - Porque é que é assim? – Primeiro, porque na linguagem comum nós tomamos muitas vezes o coração pela alma toda. É também e muito especialmente porque Jesus é todo amor, porque o seu amor pelo seu Pai e por nós animava toda a sua vida, dirigia todas as suas acções. É o pensamento de Sto. Agostinho, de S. Tomás, de Bossuet. Porquê as dores de Jesus? Porque amou. Que são os seus milagres? Efeitos do seu amor e da sua bondade.
A linguagem corrente está, aliás, baseada em realidades profundas quando liga ao coração toda a vida moral e afectiva do homem: as virtudes como os sentimentos, os princípios de acção e as motivações íntimas. É que o coração é o eco de toda a nossa vida afectiva, é impressionado por todas as nossas disposições morais.
É, portanto, uma extensão legítima e natural conceber a devoção ao Sagrado Coração como indo ao coração real e vivo de Jesus, para aí honrar tudo o que ele é, tudo o que faz, tudo o que ele recorda e representa ao espírito. Deste modo, a devoção ao Sagrado Coração já não é apenas a devoção ao amor do coração de Jesus, ela torna-se a devoção a todo o íntimo do Salvador, enquanto este íntimo tem no coração vivo um eco, um centro de ressonância, um símbolo ou um signo de recordação (Bainvel).

III -  Por extensão, o Sagrado Coração é ainda toda a pessoa de Jesus. – Na linguagem corrente, a palavra coração é muitas vezes utilizada (por uma figura que os gramáticos chamaram com o nome grego de sinédoque) para designar a pessoa. Diz-se: é um grande coração, é um bom coração.
Isto aconteceu muito naturalmente na devoção ao Sagrado Coração. Margarida Maria diz: Este Sagrado Coração, como ela dizia: Jesus. Este uso tornou-se corrente. É preciso notar, todavia, que se considera então especialmente a pessoa de Jesus na sua vida afectiva, no seu íntimo, nos seus princípios de conduta.
Assim entendido, o Sagrado Coração recorda-me Jesus em toda a sua vida afectiva e moral, Jesus íntimo, Jesus todo amante e todo amável, Jesus modelo de todas as virtudes. Toda a vida de Nosso Senhor pode assim concentrar-se no seu coração.
No mesmo sentido, uma estátua do Sagrado Coração é uma estátua na qual Jesus, mostrando-nos o seu coração, procura traduzir aos nossos olhos toda a sua vida íntima, o seu amor sobretudo e as suas amabilidades.
Graças a esta extensão, podemos descrever a devoção ao Sagrado Coração como a devoção a Jesus mostrando-se a nós ou mostrando-nos o seu coração, na sua vida íntima e nos seus sentimentos mais pessoais, os quais mais não dizem, aliás, senão amor e amabilidade. É Jesus revelando-nos o fundo de si mesmo dizendo-nos: «Eis o coração» (Bainvel).

Resolução. – Oh! A admirável devoção, que chama a minha atenção para todo o interior de Jesus, sobretudo para o seu amor, mas também para todas as suas virtudes, todos os seus sentimentos, o princípio e a alma de todos os seus mistérios. É a manifestação da regra de vida traçada por S. Paulo: Formai em vós os sentimentos de Jesus: Hoc sentite in vobis quod et in Christo Jesus.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

3 - O Coração que ama os homens

Estote ergo imitatores Dei sicut filii carissimi et ambulate in dilectione sicut et Christus dilexit nos et tradidit se ipsum pro nobis oblationem et hostiam Deo in odorem suavitatis (Ef 5, 1-2).


Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave (Ef 5, 1-2).


Sacratíssimo Coração de Jesus, eu confio e espero em Vós!
É sobretudo o seu amor pelos homens que honramos no Coração de Jesus. 
I - O amor que honramos neste culto é sobretudo o amor de Jesus pelos homens, o amor que pede uma reciprocidade de amor. Quem é que melhor nos pode instruir senão Nosso Senhor mesmo? Ora o que foi que ele disse a Margarida Maria? Quando da sua primeira grande revelação, no dia 27 de Dezembro de 1673, na festa de S. João, mostra-lhe o seu coração sobre um trono com uma coroa de espinhos e a cruz, e diz-lhe que estes instrumentos da Paixão significavam o amor imenso que manifestou pelos homens e pelo qual pedia um amor recíproco.
Na segunda grande revelação, na primeira sexta-feira de Junho de 1674, Nosso Senhor descobre à sua serva «as maravilhas inexplicáveis do puro amor, e até àquele excesso que o tinha levado a amor os homens dos quais não recebia senão ingratidões e desconhecimentos…».
Finalmente, na terceira grande revelação, durante a oitava do Santíssimo Sacramento em 1675, Nosso Senhor dá a fórmula definitiva desta devoção: «Eis o Coração que tanto amou os homens, que nada poupou, até esgotar-se e consumir-se, para lhes testemunhar o seu amor, e que não recebe em troca, na maior parte das vezes, senão ingratidões e desprezos…». Nada mais claro, Nosso Senhor queria sobretudo recordar-nos os seu amor por nos e pedir-nos um amor recíproco.

II - É também, por extensão, o seu amor por Deus. – O amor de Jesus pelos homens não vai sem o seu amor pelo seu Pai; está por ele todo penetrado, colhe nele a sua fonte, tem nele o seu motivo, Jesus sabe o grande /620 mandamento: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração…» e o segundo mandamento, que é semelhante ao primeiro: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo e por Deus».
Chama a nossa atenção sobre o seu amor por nós, mas espontaneamente nós estendemos a nossa contemplação a todo o seu Coração, a todo o seu interior, a todas as suas virtudes, e o sentimento mais elevado que aí encontramos é o seu amor pelo seu Pai. «As principais virtudes que se pretende honrar no Coração de Jesus, diz o P. Cláudio de la Colombière, são primeiramente um amor ardentíssimo de Deus seu Pai». O P. Croiset e o P. de Gallifet não falam de modo diferente. A devoção ao Coração de Jesus é, no seu objecto directo e imediato, a devoção ao Coração de Jesus ardente de amor por nós; mas é também, por uma extensão legítima e natural, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus em toda a sua vida íntima, nas suas virtudes e particularmente no seu amor por Deus.
Enquanto emblema, é o seu amor por nós que Jesus nos revela ao descobrir-nos o seu coração, mas convida-nos indirectamente a contemplar este divino Coração em toda a sua vida íntima e em todas as suas virtudes, das quais a primeira é o amor pelo seu Pai.

III - É o seu amor criado antes que o seu amor incriado. – Qual é o amor de Jesus que é preciso honrar na devoção ao Sagrado Coração, o seu amor criado ou incriado? O amor com que nos ama como homem na sua natureza humana, ou aquele com que nos ama como Deus na sua natureza divina e, para repetir uma expressão clara e curta, aquele que criou Lázaro ou aquele que chorou sobre Lázaro? (P. Bainvel)
Não há dúvida que o objecto preciso e formal da nossa devoção é o Coração humano de Jesus, animado do seu amor divino e humano. É o Coração do Verbo incarnado que tanto amou os homens; é o imenso amor do Verbo incarnado, que se manifesta em toda a sua vida, na sua morte, no Santíssimo Sacramento. Assim falam aqueles que tinham a missão de propagar esta devoção, o P. de la Colombière, o P. Croiset, o P. de Gallifet.
Mas aconteceu, e isto era natural que se passasse facilmente à consideração do amor puramente divino, que levou o Verbo de Deus a nos criar, a nos conservar e sobretudo a tomar um corpo mortal para nos salvar. Isto não é estritamente a devoção ao Sagrado Coração, é uma consequência. Tendo-nos tornado mais amantes a respeito do Coração do Verbo Incarnado, tornamo-nos também mais gratos para com o Verbo divino/621 que quis tomar um corpo humano para o oferecer como vítima em nosso proveito.

Resoluções. – Quanto mais a minha devoção se esclarece, mais amo o Coração de Jesus. Conheço-o melhor, medito-o mais facilmente. Quero viver e morrer neste Coração, que viveu por meu amor. Quero unir-me a ele sempre mais fielmente no começo das minhas ações.


Meditações do Venerável Leão Dehon
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